Entre o despertar e um sonho
Acordei antes do mundo.
Não por pressa,
mas por vontade de ficar comigo
antes que o dia pedisse algo.
O corpo ainda carregava
os restos do sonho,
e a luz entrava devagar,
como quem pede licença.
Vesti o que não pesa.
Não para ser vista,
mas para me sentir habitável.
Há roupas que não vestem —
acolhem.
O espelho não perguntou nada.
E eu agradeci.
Há dias em que existir
já é resposta suficiente.
A fotografia nasceu assim:
sem anúncio,
sem intenção grandiosa.
Um instante simples
em que o corpo decidiu ficar
e a alma não quis fugir.
Não era pose.
Era pausa.
Não era ensaio.
Era presença.
Entre o despertar e o mundo,
houve esse espaço breve
onde fui inteira
sem precisar provar.
E talvez seja isso
que a imagem guarda:
o momento exato
em que a gente se escolhe
antes de ser escolhida pelo dia.