A manhã não pediu pressa.
Entrou pela janela sem avisar,
tocando a pele como quem conhece
os limites do silêncio.
Havia um intervalo raro
entre o que o mundo espera
e o que eu ainda sou ao despertar.
O corpo descansava em si mesmo.
Sem pose.
Sem defesa.
Existem instantes em que a gente não performa.
Apenas permanece.
Foi nesse espaço curto,
entre o antes e o agora,
que a imagem aconteceu.
Não como registro,
mas como permanência.
O olhar não procurava resposta.
As mãos não pediam direção.
Tudo estava exatamente
onde deveria estar.
Há dias em que a beleza não grita.
Ela repousa.
E talvez seja isso que essa fotografia guarda:
o momento em que o corpo aceita ficar
e a alma decide não fugir.
Não era cena.
Era verdade.
Um gesto íntimo,
quase invisível,
de quem se escolhe
antes de ser escolhida pelo dia.